
O empresário Léo Slezynger, ligado à petroquímica Unigel, convidou Fábio Luís Lula da Silva, conhecido como Lulinha e filho mais velho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), para integrar o conselho de uma organização ambiental. A iniciativa ocorreu em meio a articulações para captar recursos destinados a projetos ambientais e a tratativas envolvendo a Unigel e a Petrobras, segundo reportagem publicada pelo Metrópoles em 20 de outubro.
As conversas reveladas pela publicação mostram que a lobista Roberta Luchsinger sugeriu que o empresário oferecesse a Lulinha uma posição remunerada na entidade. Em uma das mensagens, ela associou a proposta à possibilidade de aproximação com o presidente da República e classificou a estratégia como uma espécie de “toma lá, dá cá”.
Proposta envolvia recursos para projetos ambientais
As mensagens citadas na reportagem datam de abril de 2023, quando o então presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, anunciou a intenção de buscar US$ 500 milhões para o Fundo Amazônia ao longo de cinco anos.
Segundo o Metrópoles, Roberta incentivou Slezynger a estruturar uma iniciativa capaz de receber recursos e sugeriu a participação de Lulinha no conselho da organização.
Em uma das conversas, a lobista escreveu que o empresário deveria convidar o filho do presidente e oferecer remuneração pelo cargo. Ela também questionou qual fundo Lula poderia favorecer, mencionando que Lulinha integraria e receberia pelo trabalho no conselho.
As mensagens indicam que Slezynger e Lulinha conversaram sobre a formação de um conselho e a captação de doações. A proposta previa a criação da Brasil Climate Change (BRACC), organização voltada a iniciativas ambientais e de sustentabilidade.
Um diagrama compartilhado pelo empresário em maio de 2023 previa Lulinha, Roberta Luchsinger e a então ministra Marina Silva no conselho estratégico. A composição também mencionava o empresário Roberto Klabin e o próprio Slezynger no conselho empresarial, além de Sônia Guajajara no conselho técnico.
De acordo com a reportagem, Lulinha respondeu que seria necessário verificar se ministros poderiam ocupar cargos em entidades privadas. O empresário afirmou que a participação dele seria importante. A publicação informa que a organização chegou a ter um site e planejou um evento em Paraty (RJ), posteriormente adiado.Relação com a Petrobras entrou no contexto da investigação
O caso também envolve as relações comerciais da Unigel com a Petrobras. A petroquímica foi beneficiada por um contrato relacionado ao processamento de gás natural, que acabou sendo anulado pelo Tribunal de Contas da União (TCU), conforme relatado pelo Metrópoles. Segundo a publicação, o tribunal considerou o acordo prejudicial à estatal.
Em julho de 2023, Slezynger enviou uma mensagem a Lulinha agradecendo pelo trabalho que ele teria realizado junto ao presidente em favor da Unigel. Na resposta reproduzida pela reportagem, Lulinha afirmou que todos estavam torcendo pelo resultado e que esperava que o empresário conseguisse concluir a iniciativa.
As conversas passaram a integrar o contexto de apurações sobre uma possível atuação para favorecer interesses privados nas relações com o poder público.
A CNN Brasil também noticiou, em setembro, que a Polícia Federal investigava uma suposta atuação de Lulinha em benefício da Unigel junto à Petrobras, envolvendo ainda Roberta Luchsinger e o ex-chefe de gabinete da Presidência Marco Aurélio Santana Ribeiro, conhecido como Marcola. Segundo a emissora, as apurações incluíam tratativas empresariais e um possível contrato de consultoria. Caso é investigado pelo Supremo
De acordo com o Metrópoles, os fatos relacionados à suspeita de tráfico de influência envolvendo a Unigel são apurados em um inquérito no Supremo Tribunal Federal (STF), sob relatoria do ministro Flávio Dino.
A investigação busca esclarecer as circunstâncias das articulações e se houve influência indevida em favor de interesses privados. A existência de uma investigação, por si só, não comprova a prática de crime.
Em manifestações publicadas anteriormente pela CNN Brasil, a Petrobras afirmou que as negociações relacionadas às unidades de fertilizantes seguiram as normas de governança da companhia. A empresa também declarou que nenhum integrante de sua diretoria executiva tratou do assunto com as pessoas citadas pela reportagem.
A Unigel afirmou que jamais manteve relação contratual com Roberta Luchsinger ou com empresas vinculadas a ela. Já a Secretaria de Comunicação da Presidência declarou que Lula não recebeu das pessoas citadas demandas relacionadas ao contrato e não interferiu nas negociações. A defesa de Marco Aurélio Santana Ribeiro também negou que ele tenha intermediado negociações privadas.
Até a publicação da reportagem do Metrópoles, o conteúdo divulgado apontava para negociações sobre a participação de Lulinha na organização ambiental e para mensagens que levantaram suspeitas sobre a finalidade da oferta. A apuração das autoridades deverá esclarecer se houve irregularidade e eventual benefício indevido.