
O Ministério Público do Paraná (MPPR), por meio do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), deflagrou nesta segunda-feira (26) a Operação Samaritano, que investiga um possível esquema de desvio de recursos destinados a instituições beneficentes. O prejuízo estimado chega a R$ 36.913.661,48.
A investigação envolve uma distribuidora de títulos de capitalização sediada em Londrina e empresas relacionadas a ela. Segundo o Ministério Público, há indícios de que valores que deveriam ser destinados a entidades assistenciais teriam sido retidos ou devolvidos indevidamente à empresa por meio de operações comerciais suspeitas.
Entre as possíveis vítimas estão a Federação Nacional das Apaes (Fenapaes), a Irmandade Santa Casa de Londrina e o Hospital do Câncer de Londrina.
Operação cumpriu 17 mandados
A ação foi autorizada pela 3ª Vara Criminal de Londrina e resultou no cumprimento de 17 mandados de busca e apreensão.
As diligências ocorreram em Londrina, Ibiporã e Maringá, no Paraná, além da capital paulista e de Itupeva, no estado de São Paulo.
Além das buscas, a Justiça determinou o sequestro de imóveis e o bloqueio de valores até o limite de R$ 36.913.661,48. As medidas buscam preservar bens e recursos relacionados aos fatos investigados.
Como funcionaria o esquema investigado?
As apurações começaram em 2021 e se concentram na comercialização de títulos de capitalização na modalidade filantrópica.
Nesse modelo, o comprador participa de sorteios e cede a uma entidade beneficente o direito ao resgate financeiro do título. Os recursos devem seguir as regras aplicáveis à modalidade e beneficiar as instituições indicadas.
Segundo as informações divulgadas pelo Ministério Público, até 2019 a distribuidora concentrava a arrecadação e apresentava à Federação Nacional das Apaes a prestação de contas das despesas descontadas.
Os investigadores identificaram indícios de que despesas teriam sido artificialmente aumentadas por meio de notas fiscais sem comprovação dos serviços, documentos duplicados e cobranças relacionadas a serviços prestados a outras empresas.
Também são investigadas possíveis operações envolvendo empresas de fachada registradas em nome de funcionários e distribuidores.
Santa Casa e Hospital do Câncer transferiram milhões
Documentos analisados durante a investigação apontam transferências de valores expressivos à distribuidora investigada.
Entre março de 2020 e maio de 2022, a Santa Casa de Londrina transferiu aproximadamente R$ 33,16 milhões à empresa.
Já o Hospital do Câncer de Londrina realizou transferências que totalizaram cerca de R$ 3,75 milhões entre julho de 2020 e abril de 2021.
De acordo com o Ministério Público, documentos apresentados pelo próprio hospital indicam que a prática investigada pode ter continuado por meio de empresas sucessoras, sob outra marca, pelo menos até 2024.
A investigação procura esclarecer a natureza dessas transferências, as condições dos contratos e o destino final dos recursos.
Investigação também apura suspeita de lavagem de dinheiro
Outro ponto apurado pelo Gaeco é a possível utilização de empresas registradas em nome de familiares dos sócios da distribuidora para movimentar recursos e dificultar a identificação de sua origem.
Segundo os investigadores, há indícios de que operações financeiras relacionadas ao caso possam ter sido utilizadas para adquirir imóveis e veículos de alto padrão.
Entre os possíveis crimes investigados estão apropriação indébita, estelionato, falsidade ideológica e lavagem de dinheiro.
Até o momento, as informações divulgadas se referem a suspeitas sob investigação, sem conclusão definitiva sobre a responsabilidade dos envolvidos.
Ministério Público esclarece situação das entidades
O MPPR ressaltou que a comercialização de títulos de capitalização na modalidade filantrópica é uma atividade legal, regulamentada pela Superintendência de Seguros Privados (Susep).
O órgão também esclareceu que as entidades beneficentes são consideradas possíveis vítimas dos fatos investigados.
O procedimento tramita sob segredo de Justiça, e as apurações continuam para esclarecer a movimentação dos recursos e a eventual participação dos envolvidos.